Antes do artigo, gostaria de colocar o link para uma entrevista que dei para o jornalista Ruleandson do Carmo, de Belo Horizonte. Foi publicada ontem, dia 31/01. O título é “Machismo e Amor: um Homem em Defesa das Mulheres”, e se encontra na página principal.
www.eusoqueriaumcafe.com

“…A maioria das pessoas vê o problema do amor, antes de tudo, como o de ser amado, em lugar do de amar, da capacidade de alguém para amar. Assim, para essas pessoas o problema é como serem amadas, como serem amáveis. Na busca desse alvo, seguem diversos caminhos. Um deles, especialmente utilizado pelos homens, é ter sucesso, ter todo o poder e riqueza que a sua posição social permitir. Outro, especialmente utilizado pelas mulheres, é tornarem-se atraentes, pelo cuidado com o corpo, o vestuário, etc. Outros modos de se fazer alguém atraente, usados tanto por homens como por mulheres, são o desenvolvimento de maneiras agradáveis, conversação interessante, a prestatividade, a modéstia, a inofensividade. Muitas das maneiras de uma pessoa se tornar amável são as mesmas empregadas para obter sucesso, “para conquistar amigos e influenciar os outros”. Na realidade, o que a maioria dos de nossa cultura considera ser amável é, essencialmente, uma mistura de ser popular e possuir atração sexual.”

Trecho extraído do livro A Arte de Amar, de Erich Fromm.

Segunda-feira. Dois amigos solteiros almoçam juntos.
- E então, como foi a festa de sábado?
- Foi demais! Tinha mulher saindo pelo ralo. Peguei três e comi uma em meu apartamento. Ontem, domingo, saí com outra delas e que também já é certo que vou comer.
- Ué, sua namorada não foi?
- Não. Dei um perdido nela. Falei que estava cansado e que não queria sair. Eu tinha que ir sozinho nessa festa. Sabia que ia bombar.
- Que legal!! Você é foda!
Acabou o relato sobre a festa.

Durante muitos anos, tenho lido e ouvido que o mundo orbita em torno do sexo. Claro que sempre concordei com essa afirmação, pois sentia a sua verdade na minha pele e nos comportamentos das pessoas, principalmente dos homens. Aqueles menos providos de beleza física e/ou mais dotados de timidez eram, simplesmente, “menos” do que os outros cujas coleções de novas conquistas cresciam vertiginosamente e que sempre tinham um novo troféu de saia para exibir em suas galerias de títulos de garanhões da temporada.

O homem, principalmente – mas claro que não apenas ele, quando se veste, exercita seu corpo para ganhar músculos, compra um apartamento bem localizado, um carro ou uma roupa, estuda, atualiza-se a respeito do que está ocorrendo no mundo, tornando-se “o esclarecido”, consegue um bom emprego, melhora de salário, etc, no fundo, pensa em maiores facilidades para conseguir o que? Sexo.

Eu, por pura ingenuidade estúpida – mais estúpida do que ingênua, achava essa postura natural do ser humano macho. Natural não no sentido de comportamento normal – porque realmente o é; eu achava que fazia parte de nossa essência de macho mesmo. Atualmente, menos idiota, percebo que até certo ponto, sim, mas tenho conseguido enxergar um grande espaço para inserir um sensato não.

Gostaria de deixar bem claro que possuo um conceito bem diferente da moralidade sobre a promiscuidade. Ela, para mim, não está associada à intensidade da variação de parceiros sexuais. Associo a promiscuidade à qualidade dos encontros, às razões que levaram a pessoa a escolher o parceiro e com ele aceitar fazer sexo e com que frequência o sexo pelo sexo ocorre no cotidiano de determinado homem ou mulher, deixando a conhecida sensação de vazio.

Li, durante essas férias, duas vezes, o livro do sociólogo americano Anthony Giddens, da Universidade de Cambridge, chamado A Transformação da Intimidade. Essa leitura solidificou muitas conclusões que tenho tirado de experiências com as minhas liberdades interior e relacional, as quais tenho me proposto a aumentar cada vez mais.

Segue o relato de um homem, extraído do livro, feito durante uma reunião de um grupo de autoajuda para pessoas viciadas em sexo. Para quem não sabia, esses grupos existem, inclusive no Brasil, semelhantemente aos Alcoólicos Anônimos.

“Compreendi que as medidas que sempre havia assumido para afastar a dor tornaram-se imensuravelmente dolorosas: levar uma mulher para a cama não funcionava mais para mim. Perdi muita coisa na busca do meu vício, e a minha sensação de vazio pessoal agora me atingia minutos depois de minha última conquista. O sexo não me proporcionava nada além da liberação da minha ejaculação; muito frequentemente, sequer, eu conseguia atingir o orgasmo. As mulheres não eram mais objetos de amor ou de desejo. Eu havia atingido o ponto em que sentia repugnância por minhas parceiras, mesmo quando as penetrava, e a causa da minha aversão era, principalmente, o fato de eu saber o quanto eu precisava delas.[...] Nenhum de nós jamais sente aquela satisfação no abraço mais íntimo, que o instinto e a razão me dizem que deveria ocorrer.”

Independentemente do gênero, todos nós que temos ou tivemos, em algum período, vidas sexuais ativas, sabemos muito bem o que é essa sensação de nada, após o sexo ou no dia seguinte. O máximo que conseguimos é gozar – quando ocorre. Minutos depois, dá vontade de virar fumaça e sair pela janela, sem direito à despedida. Não houve o que chamo de “comunicação” ou troca de boas energias durante o sexo.

A mulher, em geral, não se permite novas tentativas sucessivas, freqüentes e em pouco espaço de tempo, em busca de outro encontro que talvez vá alimentar de verdade as carências de sua alma. Com isso, sua última experiência frustrante e vazia permanece por um bom tempo em sua mente, até tomar coragem para uma nova experiência. Muitas das vezes – mas nem sempre – ela tende a se reclusar sexualmente, por um período. O homem, se surgir uma nova oportunidade no dia seguinte, não a deixará passar. Ou seja, nele, existe sempre a esperança de que “amanhã será melhor”, permitindo-se experimentar, devido à “quase” ausência da culpa. Então, acumula uma sucessão de trepadas com as mesmas sensações: de nada. O que muda é se elas eram feias ou bonitas, extrovertidas ou tímidas, românticas ou resolvidas, ricas ou pobres, inteligentes ou limitadas, bundas e peitos grandes ou pequenos. Quanto às sensações, tudo igual. Depois ele se diz “experiente”.

Atualmente, tenho o prazer de estar descobrindo que esse sexocentrismo – podendo ser vício ou compulsão – e a desenfreada busca do ato sexual, com seu conseqüente vazio interior, são decorrentes, de uma forma bem simplista, da ausência de verdades nos relacionamentos, assim como do conhecimento e da liberdade das nossas sexualidades. Se não tenho intimidade com a minha essência, se não converso com o meu eu, jamais conseguirei saber o que a minha alma verdadeiramente deseja, do que ela precisa para ficar em paz, dando-me a sensação de bem-estar. Então, viro uma marionete da sociedade, que dita tudo que eu preciso. Tudo tem me levado a concluir que as verdades – em um sentido muito amplo – são o ponto de partida para o nosso desenvolvimento como seres humanos. A partir delas surgirá a libertação interior e exterior e, consequentemente, da ditadura do sexo.

Estamos falando de que? De amor. Que tipo de amor? Amor pela verdade, amor pelo outro exatamente como ele é, independentemente de nossos interesses, necessidades e temores.

Erich Fromm, em seu livro A Arte de Amar, diz que “… a principal condição para realização do amor é a superação do narcisismo. A orientação narcisista é aquela em que só se experimenta como real o que existe dentro da pessoa, ao passo que os fenômenos do mundo exterior não têm realidade em si mesmos, mas são experimentados somente do ponto de vista de serem úteis ou perigosos. O pólo oposto ao narcisismo é a objetividade; é a faculdade de ver pessoas e coisas tais como são, objetivamente, e a capacidade de separar esta imagem objetiva de uma imagem formada pelos desejos e temores que se tenham. Todas as formas de psicose mostram a incapacidade de ser objetivo, em extremo grau. Para a pessoa insana, a única realidade que existe está dentro dela, é a de seus temores e desejos”.

A nossa sociedade narcisista, romântica e patriarcal inventou um mundo irreal para que nele vivêssemos e o aceitamos sem nada questionar. Inconformado, resolvi afrontar esse mundo imposto, e a reboque, sua sociedade, o romantismo, o patriarcado e tudo mais que castrava o meu livre-arbítrio, na tentativa de descobrir do que eu realmente preciso para viver em paz. Curiosamente, descobri que, inicialmente, em sequência lógica, só preciso do seguinte:

1) Conseguir ficar sozinho – só toma conhecimento do que é o amor puro e verdadeiro aquele que exercita a solidão e consegue conviver bem com ela, Poucos conseguem enxergar nela a poderosa e única aliada para o autoconhecimento, logo, poucos têm contato com esse tipo de amor;
2) Exercer e estimular, cada vez mais, sem medo do desconhecido ou vergonha de ser diferente, a expressão da verdade sobre minha sexualidade, assim como a de quem estiver comigo, mesmo que as duas passem como um rolo compressor sobre todos os proibitivos preceitos morais vigentes – sem dúvida, passarão;
3) Exercitar o pensamento, a expressão e a ação da minha liberdade e permitir que as pessoas com quem me relaciono façam o mesmo. Quanto mais a pratico, mais descubro quanto tempo eu perdi e o quanto fui enganado pela masculinidade que me ensinaram a exercer; e
4) Ter coragem para ousar práticas de relacionamentos nada usuais e condenados pela sociedade, quando acredito serem factíveis e superiores aos convencionais, sintéticos e nada naturais, baseado somente em minha consciência e intuição, após várias conversas comigo mesmo – que ocorrem diariamente.

Durante algum tempo praticando o acima descrito, estou tendo uma grata surpresa, ao perceber o meu narcisismo desaparecendo, aos poucos. Finalizei o processo? De forma alguma. Ele está apenas no começo, mas já tem me rendido excelentes frutos. O principal deles foi passar a dar menos importância ao sexo, tirando-o da condição de protagonista das minhas relações e colocando-o em seu devido lugar: o de uma agradável e inevitável conseqüência. Aqui entra a objetividade comentada por Erich Fromm. É bastante óbvio e racional que eu só posso amar e desejar de verdade aquele que eu conheço de verdade – e isso se estende às relações entre amigos e entre pais e filhos. A palavra desejo sempre nos remete ao sexo. Porém, falo de desejo pelo ente humano que com ele carrega suas idéias, comportamentos, idiossincrasias e filosofia de vida… mais uma vez, apesar dos nossos interesses, necessidades e temores.

Somente agora, no finalzinho do artigo, entro na questão central do post. Atualmente, vivo em total liberdade e em intenso regime de verdades, tendo apresentado a todas as mulheres que conheço, parceiras ou apenas amigas, quem realmente sou, além de, avidamente, demonstrar querer saber quem elas também são, o que pensam, estimulando-as, sinceramente, a assumir e exercer suas sexualidades. Deixo claro que somente eu tomo as decisões sobre minha vida e faço minhas escolhas – e vice-versa. Isso tem sido compreendido e tenho conseguido, com sucesso, manter relacionamentos intensos de amizade e cumplicidade, com amigas ou parceiras sexuais – que também nunca deixam de ser verdadeiras amigas.

O interessante é que, apesar da liberdade, encontro-me, atualmente, em um regime praticamente de monoamor – ou de monogamia sexual, como é mais conhecido, sem controles e cobranças. Pura opção mesmo, apesar de eu não estar fechado a nada. Por quanto tempo mais pode durar essa escolha? Não sei e não me preocupo com isso. Posso passear entre momentos de mono e polirrelações, contanto que eu esteja bem comigo mesmo e que as verdades nunca sejam deixadas de lado. Pergunto: essa tranquilidade e paz é, estranhamente, apesar da liberdade ou é decorrência dela? Tenho certeza de que é consequência.

Assim sendo, será que a liberdade é tão perniciosa aos relacionamentos quanto os românticos defendem estereotipadamente e sem pensar? Ou será que não passa de uma postura covarde decorrente de inseguranças narcisistas? A grande maioria dos homens – praticamente todos – não faz idéia do quanto essa masculinidade imposta, com o mito do corno, da posse, dominação, honra, virilidade, infalibilidade sexual, etc, elimina qualquer possibilidade de um relacionamento puro e verdadeiro. Não fazemos idéia do quanto esses mitos nos tornam pequenos, mesquinhos, egoístas e incapazes de amar, no sentido mais sublime da palavra.

Em meio à transformação social que se encontra em curso há algumas décadas, há tempo entramos na fase da busca dos relacionamentos especiais, que vai muito além da busca da pessoa especial – boazinha, companheira, cuidadosa, fiel, que abdica de suas vontades para satisfazer o outro, etc. Basta olharmos em volta e veremos inúmeros casamentos entre “pessoas especiais” sendo desfeitos, por iniciativas femininas, por serem relacionamentos insatisfatórios. Infelizmente, poucos homens conseguem se sensibilizar a esse respeito… estão ficando para trás e mesmo assim não conseguem enxergar conscientemente a poeira que as mulheres estão deixando. Resumindo, estão perdidos.

Se os fanáticos românticos conseguissem entender que a liberdade e as verdades proporcionam uma paz interior capaz de minimizar bastante o ímpeto masculino de ser “promíscuo”, de trepar, tornando as pessoas muito mais seletivas, ensinando-lhes o que é sentir verdadeiro afeto em um abraço e a amar em um sentido bem amplo e desfocado do sexo… se soubessem como é maravilhoso não ter medo das verdades do parceiro, vivendo e também proporcionando a liberdade, deixando o par muito mais seguro – já que a segurança é o que mais buscam, cinicamente nomeando-a de amor – deixariam de lado as mentiras e migrariam “voando” para o regime de liberdade. Aqueles vazios no café da manhã do dia seguinte dificilmente voltarão a tomá-los.

A hipocrisia dos casamentos institucionais tidos como moralmente corretos, além de limitar os relacionamentos à superficialidade, ainda tem a característica de lançar cônjuges e namorados – sem o(a) parceiro(a) – em direção ao proibido, que são os “episódicos encontros Miojo”, quando o sexo e a novidade assumem imensa importância. Então, vivemos repetindo que o proibido é extremamente excitante – e não o deixa de ser. No entanto, devido às mentiras, acabamos nos contentando com esses romances furtivos e deixamos de conhecer outros encontros muito mais excitantes e cheios de sensações cúmplices, quando duas pessoas resolvem conhecer juntas o que existe por trás das disseminadas imoralidades proibidas. Porém, agora em um ambiente desprovido de mentiras, culpas e, consequentemente, favorável às novas descobertas, que vão muito além do sexo: sobre a própria vida. Dessa forma, troca-se o Miojo por um banquete real, quando se descobre que a liberdade torna os relacionamentos muito mais nobres e é bem mais excitante do que o proibido.

Muito do que escrevi sobree os homens adequa-se perfeitamente aos atuais comportamentos de muitas mulheres. Porém, existem várias nuanças e diferenças que esclarecerei durante os comentários, a fim de que o artigo não se torne enorme – já não ficou?

10 Comentários »

10 Responses to “16.Amor, liberdade, sexo e promiscuidade”

  1. GERSON JUNIOR CADOSO PEREIRA disse:

    VIDA NIM DA TISTE.

  2. Thaís disse:

    Muitas pessoas encaram suas relações como se fossem adolescentes aprendendo a fazer sexo. Primeiro o beijo, depois tocar os seios, ir descendo, até chegar à penetração. Por imaginarem que o sucesso do ato sexual está ligado às performances corporais, vão tentando aplicar, numa seqüência de manual, todas as técnicas aprendidas em “dez maneiras de fazer um sexo gostoso”, ou, “as melhores posições para seu parceiro gozar”. E assim, o mundo consumista, que visa vender receitas para relacionamentos saudáveis, vão enchendo a burra de dinheiro. E a idéia de que o prazer de duas pessoas pode ser encontrado em um manual, mecaniza o ato, e nos dá a falsa sensação de que agora sim, nós somos “bons de cama”. Para muitos, o sexo começa em um beijo e termina no momento em que a camisinha vai pro lixo. Nessa ânsia de manter-se “ereto” ( e aqui, refiro-me também a mulher), a maratona continua…uma massagem, alguns beijos, uma sessão de penetração, água, mais alguns toques, os dois se chupam, outra sessão de penetração, mais água, um breve cochilo, mais penetração… e as embalagens de camisinha vão se espalhando pelo chão.Quantidade em detrimento da qualidade. Ou seja, ninguém faz amor, as pessoas trepam.

    O ser humano tem necessidade de limitar. Se colocarmos fronteiras entre olhar, conversar, tocar, beijar e transar teremos que ultrapassá-las uma a uma, de modo previsível. Se não enxergarmos fronteiras, nem ela nem você vai entender como foram parar em cima da cama.

    Você pode passar a noite toda a setenta ou a dois centímetros de distância. Você pode colocar sua língua dentro da boca dela (e). Você pode tirar a roupa ou não tirar nada. Pode fazer sexo oral ou apenas passar a ponta dos dedos sobre as costas do parceiro. Você pode conversar ou ficar em silêncio. O que importa é que ambos se relacionam. Não existem apenas beijos e penetração. Há incontáveis modos de relacionamento, interfaces de contato, profundidades de toque.

    Fazer amor com liberdade, é muito mais, é misturar-se intensamente com o corpo do outro, sem que isso exija o ato sexual em si. Beijamos muito mais do que com a boca, transamos muito mais do que com os órgãos genitais. Use seus cinco sentidos para dar e receber prazer, observe o ambiente, sinta o cheiro, olhe, olhe muito, o olhar é um canal erótico sem fronteiras, rebole sobre tudo isso, penetre tudo isso e a vida vai gozar junto com você.

  3. admin disse:

    Paulinha, por mais que não queiramos que alguém sofra, que nos preocupemos com o quanto ele se machucará com uma mudança de comportamento ou possível ruptura de uma relação, não podemos viver preocupados com todos os sentimentos daqueles que cruzam os nossos caminhos, mesmo que, após uma decisão unilateral tomada por nós, alguns queiram nos apontar como fontes de suas tristezas e frustrações; não podemos nos sentir responsáveis por isso, a não ser que tenhamos mentido ou feito promessas ilusórias, ou seja, a não ser que a possibilidade da finitude da relação, por exemplo, não tenha sido maduramente conversada entre ambos… enxergo dessa forma.

    Aqui, gostaria de fazer um parêntese para falar sobre o altruísmo. Segundo o Aurélio e a Ética, é “a doutrina que considera como fim da conduta humana o interesse pelo próximo, e que se resume nos imperativos: Viva para outrem e ame o próximo mais do que a ti mesmo”. Vivemos uma cultura paradoxal: narcisista/egoísta e ao mesmo tempo condolente, da pregação da compaixão exacerbada – às vezes por crença na promessa de um terreno no céu – que, em minha opinião, também faz parte da cultura romântica, que possui um objetivo subliminar de frear e aniquilar a individuação. Então cito Anthony Giddens, com a sua abordagem sobre codependência e com o seguinte trecho do seu livro A Transformação da Intimidade: “… O que parece, à primeira vista, um encorajamento do egoísmo, até do narcisismo, deveria ser antes compreendido como um ponto de partida essencial para a possibilidade de desenvolvimento do amor confluente. É um pré-requisito para o reconhecimento do outro como ser independente, que pode ser amado pelos seus traços e qualidades peculiares…”

    Ou seja, abnegação e permanente vigilância visando à certificação do bem-estar do outro (altruísmo) é uma combinação perfeita para nele causar dependência e impedir a formação sólida de sua identidade. Tal tipo de relação é perfeitamente observável nas equivocadas e românticas criações da grande maioria dos filhos, nas quais o que insistem em chamar de amor materno/paterno não passa de um relacionamento tóxico de codependência dos pais.

    Amor confluente é o mesmo que o amor verdadeiro existente em um relacionamento puro, sem omissões e mentiras.

    O quanto uma pessoa sofre com as nossas atitudes distintas das suas expectativas não é responsabilidade nossa. O nosso papel é dialogar e não mentir. Se mesmo assim ela sofre, isso é culpa dela mesma, que não construiu de forma sólida a sua coluna psíquica. Se eu levei uma vida inteira construindo e conhecendo meu eu – o que não é um processo fácil, assim como é infinito – apesar de lamentar, não posso perder a minha paz por causa das carências de outra pessoa que sempre optou por viver na zona de conforto.

    Se ficarmos o tempo todo preocupados com essa outra pessoa, ela será balizadora e batente de nossas liberdades, expressões e ações. Por isso, acho que essa prática romântico-altruísta deve ser muito bem ponderada. Devido a ela, conhecemos namoros falidos que terminam em casamento e várias esposas e maridos que não conseguem se separar por “morrerem de pena” do parceiro e se sentirem responsáveis pela infelicidade que causarão com a ruptura da relação. Acha isso saudável? Se você se relaciona com alguém que descobre ser um dependente afetivo seu e você se sente culpada pelas suas próprias escolhas e mágoas dele, acredito ser porque faltou diálogo ou ele realmente não quis entender as mensagens… ou talvez tenha havido algum “gap/ruído” na comunicação, intencional ou não. Difícil avaliar.

    Aqueles que não sabem aplicar a necessária dose de egoísmo em suas atitudes e decisões possuem enorme poder de atrair e manter parasitas ao seu redor.

    Quando TODAS as cartas são colocadas na mesa, a isenção de culpa deixa de ser egoísmo e, simplesmente, fica claro que mensagens não foram compreendidas, possivelmente, por opção do outro.

    Não se sinta culpada pelas expectativas criadas pelo outro, das quais você não participou.

  4. Paulinha disse:

    Muito obrigada pelos comentários, mas acho que não entenderam o que quis dizer. Não consegui ser clara…

    É lógico que o relacionamento em que me encontro gera uma série de restrições e tremendo trabalho no processo de reconstrução. Não tenho duvidas disso, nem nunca tive. Não estou falando dele.

    O que estou tentando levantar é a necessidade PRIMORDIAL da preocupação com o outro, independente do tipo de relação criada, há quanto tempo ou como foi criada.

    Vivendo, ouvindo relatos de amigos e lendo relatos pela internet sobre relacionamentos libertários percebi que os que geram real satisfação e prazer é aquele em que não se abre mão da individualidade mas respeita-se os indivíduos envolvidos, não importando o grau de proximidade.

    Sinto falta nos posts e comentários, novamente incluo os meus até então, da importância com o ser humano, inclusive, e porque não dizer principalmente, quando de repente este já não nos atrai. Ter a preocupação de viver plenamente sim, ser fiel aos seus desejos, reconhece-los e respeita-los independente da sociedade em que estamos, mas ter sempre em mente que nem sempre o que é falado é entendido, muito menos o que é sentido por um repercute em outro da mesma forma. Eu posso hoje estar apenas com um, mas ontem tinha dois e esse segundo como fica?! Simplesmente o corto de minha vida? Não respondo telefonemas, torpedos e emails?! Ou então digo que ele deixou de ser desejado e amado logo seguirei em frente? Como explicar, mudar esse tipo de vinculo sem que o outro se machuque mais que o necessário? Como ser cuidadosa e respeitosa nesse processo?

    Enfim meu único objetivo era ressaltar a importância do cuidado com o outro e sinalizar a falta do registro de tal preocupação em nossos comentários e nos posts até então.

    Beijoca à todos :P

  5. admin disse:

    “… A relação autêntica transforma, exige uma construção dedicada, uma forma de “treinamento” mútuo.”

    Eu não tenho dúvida de que casais homo ou heterossexuais que optam por se tornarem cúmplices nas curiosidades e vontades de saber mais sobre si mesmos, sobre o outro e sobre a vida, pensando e buscando juntos que tipo de posturas deveriam assumir a fim de proporcionar uma maior durabilidade erótica e saudável à relação, ao mesmo tempo em que, de formas independentes, ambos continuem crescendo como indivíduos, sem nunca abrir mão de suas identidades, precisam/devem atropelar a grande maioria das práticas tidas como normais para um casal convencional. Afinal, o crescimento individual (não falo de profissão), muitas das vezes – quase sempre – implica a possibilidade de mudanças, novas escolhas e posturas diante da vida, novas óticas e, consequentemente, fragilização das garantias tão necessárias aos casais institucionais.

    A psicóloga e escritora belga Esther Perel, em seu livro Sexo no Cativeiro, escreve o seguinte:

    “Desejamos constância, podemos trabalhar para tê-la, mas ela nunca está garantida. Quando amamos, sempre corremos o risco da perda — por alguma crítica, por rejeição pela separação e, em última análise, pela morte, independentemente do esforço que façamos para dela nos defender. A introdução da incerteza às vezes nada mais exige senão o abandono da ilusão da certeza. Nessa mudança de percepção, reconhecemos o mistério intrínseco de nosso parceiro.
    Se quisermos continuar desejando uma pessoa, precisamos trazer um sentimento de desconhecido para um lugar familiar. Nas palavras de Proust, “a verdadeira viagem de descoberta não consiste em procurar paisagens novas, mas em enxergar com olhos novos“.
    Na verdade, nunca conhecemos nosso parceiro como julgamos conhecer. Até mesmo nos casamentos mais tediosos, a previsibilidade é uma ilusao. Nossa necessidade de constância limita o quanto desejamos conhecer quem está do nosso lado. Estamos empenhados em vê-lo(a) de acordo com uma imagem que muitas vezes é uma criação de nossa imaginação, com base em nossas próprias necessidades.
    Minha convicção, reforçada por vinte anos de prática, é que, enquanto criam segurança, muitos casais confundem amor com absorção. Essa confusão é um mau presságio para o sexo. Para ser mantido, o impulso para o outro precisa atravessar uma sinapse. O erotismo exige distância. Em outras palavras, o erotismo viceja no espaço entre o eu e o outro. Para entrar em comunhão com a pessoa amada, precisamos ser capazes de tolerar esse vazio e seu véu de incertezas.”

    Resumindo, essa segurança buscada não passa de uma armadilha e inimiga da paixão e do erotismo saudáveis.

  6. Thaís disse:

    “…concordo com você e estou sempre ligado ao outro, aos seus limites, receios, etc, sendo cumplicidade e desejo de caminhar junto mesmo. As conversas chegam a ser didáticas, lendo livros e filosofando juntos.”

    A relação padrão estabelecida entre dois seres é baseada na mediocridade, ou seja, no pior de cada ser. Ela não proporciona transformação, ela acomoda. Uma pessoa carente, por exemplo, se encanta com aquele que, por medo de ser rejeitado, oferece proteção e segurança e de um modo impulsivo e irracional se “apaixonam” e se “amam” sem saber o porquê. Não veem o outro em nenhum momento, pois estão fascinados pela sensação que ele provoca. Esse é um amor de mendicância, onde “amar” significa pedir ao outro o que queremos, ou pior, pedir aquela “coisa” que precisamos para preencher o nosso vazio. Muitas pessoas nunca conheceram uma relação que fugisse a esse padrão. Para elas, isso é tudo o que há, a única relação possível. Percebo que a relação convencional é uma aproximação simples de mundos: “eu gosto de rock and roll, você também, eu gosto de comida japonesa, você também”. Não há real penetração, não há compartilhamento, apenas uma interface cômoda e confortante.

    A relação autêntica transforma, exige uma construção dedicada, uma forma de “treinamento” mútuo. Mas para que isso aconteça, é necessário que cada um dos parceiros se estique, reconfigure-se, expanda seu corpo em um novo espaço. Essa dedicação constrói um tipo especial de intimidade a dois que culmina em uma intimidade com tudo mais que está em nossa volta, com todos os seres, com os movimentos da nossa vida e principalmente com nós mesmos.

    Hoje, vivendo uma relação autêntica, percebo que é preciso abrir-se e penetrar, mais do que isso, dar a luz, engravidar-se do outro e de si mesmo… nos deixar nascer em frente ao parceiro e fazê-lo nascer diante de nós.

  7. admin disse:

    Krica, que bom que, ao você ler os artigos (e possivelmente os comentários das mulheres que participam), você se sentiu mais comum em seus desejos femininos, dúvidas e, possivelmente, angústias. Durma tranqüila, sabendo que você é uma mulher bem normal… mais do que imagina.

    Paulinha, a questão colocada por você é muito pertinente e muito comum às pessoas que já se encontram em um relacionamento romântico em curso. São muitas as dificuldades para revertê-lo, pois já existem hábitos, vícios e falsas ilusões românticas. Como revertê-lo? Voltaríamos à comparação entre os custos da reforma de uma casa e sua construção desde o alicerce.
    Em uma relação verdadeira ou pura – como chama o sociólogo Anthony Giddens, estamos, durante todo o tempo, atentos às sensações, ansiedades e possíveis incômodos do parceiro. No artigo, comentei que a relação verdadeira é o máximo possível ausente de narcisismo, logo, nunca deixamos de observar as reações do outro, o que não ocorre nas relações românticas. Constantes conversas e aberturas para críticas facilitam as avaliações do relacionamento e acordos. Isso é bem óbvio, em função da preocupação com o bem-estar do parceiro – sem nunca nos esquecermos das nossas individualidades.
    No entanto, Paulinha, apesar de o seu caso ser comum a todas as pessoas que já possuem um longo relacionamento em curso, que começou da forma tradicional e que resolvem mudá-lo, ele é diferente do meu, pois hoje tenho oportunidade de ser objetivo e verdadeiro desde os primeiros cinco minutos de conversa. Sem dúvida alguma, você se encontra em uma situação mais delicada, pois, durante longo tempo – no seu caso, sete anos – vocês tiveram a falsa ilusão da posse, do “meu incompartilhável e eterno”. Na verdade, precisam sair de uma difundida e ilusória segurança matrimonial para encarar as reais sensações de ameaça que TODOS os casais vivem, por mais conservadores que sejam. Precisamos entender que não temos segurança alguma quando o assunto é relacionamento… apenas costumes e questões morais nos transmitem uma falsa segurança… e, consequentemente, quase sempre, tédio, frustrações e mentiras nos surpreendem. A assunção dessa realidade não é nada fácil, pois fragiliza e joga por terra as “certezas” que cultivamos durante anos.
    Então, a sua preocupação com o seu marido é mais do que legítima e necessária, já que ambos concordaram, durante anos – e você também é cúmplice disso, com a confortável ausência de diálogo. Agora, possuem um problema em seus colos e sentem a necessidade de resolvê-lo.
    Resumindo, concordo com você e estou sempre ligado ao outro, aos seus limites, receios, etc, sendo cumplicidade e desejo de caminhar junto mesmo. As conversas chegam a ser didáticas, lendo livros e filosofando juntos. Começando tudo do ZERO, é bem mais tranqüilo conduzir a relação em direção ao desconhecido e não convencional, pois nenhum dos dois jamais colocou a cabeça no travesseiro tendo a sensação de que o outro lhe pertence.
    Você, realmente, possui um problema a ser solucionado, pois é fácil perceber que tem as suas convicções sobre algumas verdades em termos de relacionamentos. Agora, é ter paciência com muito diálogo.

  8. Krika disse:

    Li todos seus posts … todos vão ao encontro da minha solitária linha de pensamento … me senti menos ET.. rs!! Obrigada ,,,

  9. Paulinha disse:

    Lendo o post, diga-se muito bem escrito, fiquei com uma questão mal resolvida, seja por uma restrição cognitiva- rsrsrs-, seja pelo momento vivenciado por mim. Gostaria da ajuda de vocês!!!

    Concordo plenamente com tudo abordado pelo administrador, porém senti falta de uma questão que sempre abordo em meus comentários. A questão do outro. Sempre que começo a repensar a questão do relacionamento não romântico, caio nesse imenso abismo do qual ainda não vejo saída. A grande contradição entre nos entregarmos aos nossos desejos e exercermos a nossa liberdade plena e o respeito e cuidado ao outro. Digo por mim e meu relacionamento primário, uma vez que na minha intensa busca pelo autoconhecimento e desejo de individualidade esqueci-me de quem estava ao meu lado. Ele por sua vez, ainda impregnado dos preceitos machistas e insegurança optou pela mentira de forma a conseguir a sua, com a ilusão de que restringiria a minha. Nessa brincadeira nos perdemos e seguimos caminhos quase opostos. Conseguimos nos reencontrar e tentar traçar novamente nosso caminho, porém não sem carregar na bagagem do dia a dia, uma série de mágoas e porque não duvidas se um dia conseguiremos aceitar e conviver saudavelmente com o ocorrido.

    Acredito que ao optar viver um relacionamento libertário, baseado no respeito mútuo e em verdades, como eu tanto prezo, é necessário não só autoconhecimento, ter ciência de que é algo mutável, ou tantas coisas que já conversamos… Acho que para mim o fundamental está em ter cuidado pelas pessoas com as quais optamos por nos relacionar. É importante ter a sensibilidade de que talvez, naquele momento, não seja hora. Ou então no momento do término ou mesmo da abertura, ou até quem sabe da mudança do parceiro primário para secundário, por situações que a vida nos impõe, ter a sensibilidade e cuidado com esse outro que perde, seja o relacionamento, a exclusividade ou até mesmo a preferência de nossos desejos e tempo.

    Posso não ter compreendido plenamente, mas em alguns momentos acho nossos (nessa eu me incluo tb!!!) discursos um tanto egoístas e porque não, narcisistas. No final das contas o relacionamento seja ele tradicional, amoral, libertário e etc. não compreende no mínimo duas pessoas?

    Beijo a todos!

Leave a Reply