Gostaria de compartilhar com vocês uma entrevista dada pelo fantástico pensador Roberto Freire – desculpem-me, mas não fiz questão alguma de me conter – à revista gaúcha Wonderful. Ela se encontra em seu livro intitulado Ame e Dê Vexame, Editora Guanabara, e tem tudo a ver com o que temos conversado sobre o amor, os relacionamentos e a vida – esta que, em minha opinião, nada é que valha a pena sem os dois primeiros vividos com liberdade. Porém, as considerações do Roberto Freire – assim como as minhas – acerca desse sentimento que chamamos de amor em nada combinam com o que a massa consumidora das telenovelas o considera.
Ele morreu em 2008, aos 81 anos, depois de vários trabalhos criados, ao longo de sua vida, versando sobre o amor, afirmando não saber e não fazer sentido algum querer defini-lo.

Um site com uma breve biografia de Roberto Freire, dentre vários existentes na Internet:

http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=personalidades_biografia&cd_verbete=8927

O livro completo Ame e Dê Vexame pode ser baixado gratuitamente do site:

http://www.scribd.com/doc/8003083/Roberto-Freire-Ame-e-DVexame-rev

Vamos à entrevista:

W. — Quem é Roberto Freire, pessoa?

RF. — Talvez essa seja a coisa mais difícil, saber quem a gente é. Na verdade, não tenho mais nenhum interesse em saber quem sou. A vida vem me fazendo viver de muitos jeitos, como se já tivesse sido várias pessoas. Eu me sinto múltiplo. Quando se vive muito tempo e muito intensamente, acabamos por descobrir em nós potenciais de vida ainda não usados, por medo e por ignorância de nós mesmos. E não é a mesma coisa do que usar máscaras ou viver personagens teatralmente, como defesa ou astúcia. Quando superamos o medo de ser o que a gente realmente é, surpreendemo-nos com o que ainda dispúnhamos para ser. Talvez o melhor de nós mesmos é o que nos fazem mais reprimir. Mas, entenda, claro que a gente é um só, o que foi produzido geneticamente, mas tem também a parte que a vida nos ensina a ser, esta última de que falei. A gente vai se revelando aos pedaços e se modificando de tal forma a nos fazer pensar, quando chega a velhice, que fomos muitos homens diferentes durante a vida. O que sou hoje é quase o oposto do que fui na juventude. Acho que sou mais este velho.

W. — Mais ou menos como quando falas do amor multifacetado, mais nas mil maneiras de amar…

RF. — A gente é monogâmico só quando o amor está bom demais. Se ele fica bom, quer dizer, normal, a gente se torna logo poligâmico. Agora, quando está bom demais, não há como pensar em outras coisas, querer outras pessoas. Ficamos ali mergulhados naquela experiência, querendo aprofundá-la, vivê-la por inteiro. Isso deriva daquele negócio da gente, se quer a liberdade, não poder ser uma coisa só. Fritz Perls tem uma frase de que gosto muito: “Deus me livre das pessoas de caráter.” É que as pessoas de caráter são únicas, não mudam, não evoluem, têm obsessão pela coerência. E a vida não é assim. Na vida você tem de aparentar muita incoerência para poder viver todos os seus lados. Eu me sinto uma incoerência só, hoje em dia. E assim vivo muitas experiências, amo de mil maneiras mil pessoas, e sigo o que a Natureza me impõe. Sem entrar em um modelo, viver a moda, obedecer a padrões. Estou vivendo meus impulsos, minhas funções vitais que às vezes coincidem com as gerais e institucionalizadas, com as que foram classificadas; outras vezes, a maior parte das vezes, não, pareço maluco, dou vexames…

W. — E isso inclui alguma paixão?

RF. — Tenho várias ao mesmo tempo, atualmente. Estou vivendo uma fase diferente, interessante, porque me sinto muito disponível. Estive muito tempo preso a uma grande e exclusiva paixão e, depois que acabou, tive uma sensação de renascimento. Agora estou tentando viver envolvimentos diferentes. Fico totalmente apaixonado pela pessoa que está a meu lado, na hora que estou com ela. E acontecem sempre coisas fortes e bonitas. E ficamos juntos o tempo que for bom para nós. Preciso de pessoas que não me cobrem fidelidade, nem continuidade, nem exclusividade. Gosto do namoro, do encontro, que propicia sexualidade original, lúdica, alegre, descartável. Assim, a gente vive em permanente estado de descoberta, surpresa e encantamento.

W. — E como é tua relação com os amigos?

RF. — Eu sou muito apaixonado pelos meus amigos. A minha paixão por um amigo é quase igual à paixão por uma mulher. Eu os amo profundamente. Não tenho a menor dúvida de que a sensação de amor é a mesma. Eu acho que filho, amigo, irmão, amante é tudo a mesma coisa em termos de quantidade e qualidade de amor. Porque só existe mesmo um único amor, uma só forma de amar, uma única e só energia amorosa que nos faz amar de jeito diferente com cada pessoa, com o tipo de relacionamento que desejamos, livremente, ter com ela. A Natureza nos deu toda uma gama de possibilidades de exercer o amor que vai da genitalidade à espiritualidade. É muito bom poder viver toda essa gama de possibilidades amorosas com toda a gama de possibilidades de pessoas que vamos encontrando por aí…

W. — Essa relação de sexo com liberdade é interessante…

RF. — Antes de nos preocuparmos com nossa vida sexual, nossa vida afetiva, a gente devia se conscientizar se estamos livres, livres para dizer sim ou não. As pessoas fazem sexo, fazem amor e se sentem envolvidas com pessoas a quem elas estão dizendo não intimamente, mas se sentem obrigadas a ficar com elas e fazer tudo o que elas pedem, inclusive em matéria de sexo. Então o mais importante a resolver é a gente procurar estar preparado para dizer sim ou não, quando sente, respectivamente, sim ou não. Quando você diz sim para alguém que deseja se relacionar sexualmente com você e está sentindo esse sim inteiro dentro de seu desejo, de seu sentimento, então a Natureza, o que mantém as coisas vivas e funcionando de modo harmonioso dentro de você, vai fazê-lo exercer sua sexualidade livre e prazerosamente, sem nenhum impedimento, dificuldade ou medo. Nessas condições, será impossível ocorrer frigidez sexual e vaginismo na mulher bem como impotência e ejaculação precoce no homem. A idéia em que me baseio, provada cientificamente, é que existe uma auto-regulação espontânea em nosso organismo, para que todas as funções vitais, incluindo a sexual, funcionem natural e espontaneamente. Quando o homem nasce, está pronto e apto para viver todas as suas funções vitais, como respirar, pensar, amar, fazer sexo, se alimentar. Não precisa-mos aprender a buscar nosso prazer com ninguém. Mas para a auto-regulação funcionar é preciso que não haja em você nenhuma trava emocional, psicológica e física. Acontece que a educação autoritária nos enche de travas. E a trava principal é quando a gente realmente gosta de alguém não poder sair correndo atrás dela dizendo eu te amo, te adoro, te desejo. Da mesma forma, quando a pessoa de que você não gosta está a fim de você, seria importante você pode dizer eu não quero, não gosto assim de você, não estou a fim. O problema é que não conseguimos nem dizer nem ouvir isso normalmente, sem nos parecer violência, ofensa, rejeição.

Claro, falando de sexo, não poderíamos evitar certas posturas absurdas e reacionárias da Igreja Católica. E o assunto entrou em pauta na entrevista, quando eu dizia o seguinte:

RF. — A sexualidade acontece de modo natural, é espontânea e o amor nasce dessa necessidade de aproximação entre as pessoas, com duas finalidades: a procriativa e a do encantamento.

W. — Para a Igreja só existe a necessidade procriativa…

RF. — E a vida permanece graças à procriação que deriva desse encantamento. Agora, o homem não sobrevive pela procriação, ele vive e sobrevive pelo encantamento. Mesmo entre os animais a procriação é importante, mas as espécies não permanecem porque procriam, mas porque têm prazer em permanecer. Se não têm prazer em permanecer, não adianta procriar. O que adianta é viver o encantamento derivado do prazer sexual. O ser procria em alguns minutos e, depois, como suportaria os outros milhões de minutos após a procriação?

Fatalmente cairíamos na questão da homossexualidade. Tenho me recusado ultimamente a responder a perguntas sobre esse assunto, porque sempre são acompanhadas de outras ligadas à AIDS, fazendo com que qualquer resposta se acabe tornando tão preconceituosa e reacionária quanto as perguntas, e eu acho que esse tipo de diálogo não ajuda a esclarecer nenhuma das duas questões. A meu ver, elas só devem ser tratadas em separado, porque a homossexualidade faz parte da condição humana e a AIDS é apenas um embuste, embora trágico, forjado por interesses políticos e financeiros no campo da saúde pública. Recentemente, esse embuste começou a ser denunciado e revelado. Sabe-se, com segurança, que AIDS não existe como uma doença isolada, não se comprovou ainda satisfatoriamente ser o vírus HTLV3 o seu causador. É bastante suspeito também o fato de receber
royalties, em cada teste feito para a sua localização, o cientista que o isolou. Em verdade, as pessoas que estão morrendo e rotuladas como portadoras de AIDS possuem várias doenças debilitadoras do sistema imunológico do organismo como depressão psicológica, alcoolismo, desnutrição e dependência a drogas e, por interesses científicos e políticos inconfessáveis, pelo menos por enquanto,
continuam sendo anticientífica e antieticamente classificadas de modo discriminador, visando sobretudo imobilizar a liberdade no sexo e no amor.

Antes de voltar à entrevista, quero relatar um episódio real sobre homossexualismo que, devido à inteligência brilhante de seu protagonista, ajuda a entender os aspectos políticos reacionários, tanto os relativos ao homossexualismo quanto à AIDS.
Leonard Matlovich, membro da Força Aérea Norte-Americana, foi condecorado por sua atuação no Vietnã. Posteriormente foi expulso da corporação por homossexualismo, em 1975. Depois de cinco anos de batalhas nas cortes americanas, recebeu uma indenização de 160 mil dólares da Força Área. Leonard ficou famoso por esta frase, com a qual resumiu o episódio:

A Força Aérea me condecorou porque matei dois homens no Vietnã e me expulsou por amar um.
Ele morreu de AIDS, em Los Angeles, aos 45 anos de idade.

RF. — A noção comum sobre o homossexualismo tem de ser refeita. Pelos valores tradicionais, homossexualismo é um defeito na pessoa humana, uma doença, uma perversão, uma tara. Agora, como provar isso? A única coisa que se sabe com segurança é o fato de sempre ter existido um número de pessoas que prefere viver sua sexualidade dessa maneira, com as mesmas dificuldades no plano afetivo que os heterossexuais. De novo volta-se ao problema da liberdade, também quando se fala em homossexualismo: cada um tem o direito de usar o seu corpo da maneira que lhe der mais prazer e poder atender assim a seus impulsos naturais. Importa é que todos os atos humanos sejam de inteira responsabilidade de quem os pratica. Mesmo o suicídio deveria ser entendido dessa
forma, como um ato livre e de exclusiva responsabilidade da pessoa que optou decidir sua vida dessa maneira. Eu não teria dúvida em afirmar hoje que prefiro o suicídio a qualquer restrição essencial à minha liberdade de ser e viver de acordo com a minha natureza original e única. Digo isso porque sei ser a neurose, a loucura e a mediocridade o resultado de qualquer conciliação nesse campo.

Quando a conversa voltou para a AIDS, em qualquer momento, afirmei enfaticamente:

RF. — E lamentável que o ser humano seja agora assim atingido naquilo que ele mais precisa liberar, que é o amor e a sua sexualidade. Acho, sinceramente, que eu prefiro morrer de AIDS a viver em solidão. Prefiro morrer de qualquer excesso a morrer de qualquer contenção.
Depois, para finalizar, a entrevista entrou num pingue-pongue, do qual ainda se podem selecionar algumas coisas, como estas:

W. — E como você vê a educação sexual nas escolas?

RF. — É um absurdo ensinar sexo para as crianças, porque elas sabem, quer dizer, estão prontas para fazer sexo no momento em que realmente necessitem disso. O que é preciso é ensiná-las a ser elas mesmas, para conseguirem ter uma sexualidade livre. Os corpos das crianças sabem fazer sexo. O que não sabem é como, mais tarde, vão conseguir sobreviver economicamente numa sociedade autoritária, sem se vender, sem se prostituir, mesmo sexual e afetivamente.

W. — Como você vê a liberação da mulher?

RF. — A mulher não pode ser dependente, submissa ou diminuída em relação ao homem. Acho um absurdo se usar a anatomia para explicar o comportamento do homem e da mulher, usar a anatomia como justificativa para comportamento psico e sociológico. Só porque a mulher tem o sexo invaginado e o homem o tem penetrante, isso estaria indicando que é o homem quem produz o prazer na mulher. Isso não é, absolutamente, verdade científica. A mulher, quando se faz livre, só sente real prazer se ela também produz prazer no homem, não apenas por recebê-lo. A relação de privilégio, poder, dominação de origem fálica, tem de desaparecer. Todas as curas que fiz em mulheres anorgásticas foram obtidas após essa conscientização. Assumindo uma função ativa na relação sexual, elas conseguem seu orgasmo indo buscá-lo, elas próprias, no corpo do homem.

W. — Enfim, qual é a melhor maneira de se fazer sexo? Como atingir a felicidade sexual?

RF. — Simplesmente conseguindo ser você mesmo e identificando-se com o que você é em seu corpo todo, em seu soma, não dividido, sobretudo em cabeça, tronco, membros e sexo. E aprendendo a enfrentar todas as dificuldades que se apresentam contra isso. Ser livre é muito mais difícil do que alcançar o prazer sexual. Existe um certo tipo de prazer sadomasoquista que é fácil de alcançar. É o jeito como gozam os escravos, os neuróticos, os medíocres e os poderosos. A repressão sexual nas crianças e nos jovens não visa diminuir-lhes o prazer em si, mas, sobretudo, de modo indireto, o que se pretende é mesmo reduzir sua liberdade, para ser mais fácil dominá-los e conduzi-los.

W. — Nisso tudo, onde fica o amor?

RF. — A maioria das pessoas tem uma visão estreita e conformada sobre o amor. Pra se viver um amor inteiro, livre e nem um pouco sadomasoquista, sem nenhum sacrifício, é preciso ter a coragem do ridículo, de assumir coisas aparentemente absurdas e incomuns. Porque cada um tem uma forma original e pessoal de amar, se é realmente livre. Eu sou um romântico, não há nada a fazer, só sei ser assim. Mas ser romântico hoje é ser ridículo. Então, sou ridículo, assumo, proclamo, dou vexame e fico com a sensação de que a beleza e o amor são uma só coisa. Só nesse meu romantismo consigo perceber a beleza da vida, quando estou amando.

2 Comentários »

2 Responses to “17.Roberto Freire em Ame e dê Vexame”

  1. admin disse:

    Concordo plenamente, Bella. Porém, infelizmente, não temos tempo para aguardar o mundo saber-se dessa forma para que entremos em conformidade com ele. As mudanças precisam ser feitas individualmente e, acredito, quase sempre em total solidão decisória, pois se existe alguém que não deseja, de forma alguma, que conheçamos o amor verdadeiro e a liberdade, este alguém é o “mundo”, na figura da sociedade.

  2. Bella disse:

    Que maravilha !
    Que forma tão bela de se pensar o ser humano, o amor, os desejos.
    Como será bonito quando o mundo todo souber-se desta forma! Quando as pessoas não forem rotuladas de homo… hetero… bi… de poli ou monogâmicas.
    Acredito que a coisa mais verdadeira no amor seja a aceitação do outro – amar o que a pessoa é e não o que se deseja que ela seja. E isso não vale somente para um parceiro amoroso, mas para um amigo, um familiar. Quantas mães se decepcionam pelas escolhas ou pelas características de um filho quando a personalidade dele vem à tona…

    Adorei o texto !

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