No último comentário que fiz, no artigo anterior, citei a falta de inspiração como a justificativa para o meu silêncio, por mais de um mês, devido a uma nova empreitada de estudante que se iniciou no dia 22 de fevereiro deste ano. O último artigo foi escrito, exatamente, uma semana antes, no dia 15. Confesso que esse intervalo estava incomodando-me bastante, apesar de saber que qualquer atividade criadora não depende apenas da simples vontade de fazer a obra nascer; ela não depende apenas do desejo consciente daquele que se presta a fazê-la surgir, por mais simples que seja, como a minha o é. É senso comum entre os artistas – não que eu seja um – que forçar a barra é provocar a morte de sua proposta perante seus apreciadores – para aqueles que já os têm – e a inviabilização de que novos admiradores surjam.
No entanto, durante esse período, estive me perguntando: “Será que é apenas falta de inspiração provocada pela obrigatória atenção que tenho dado às ciências exatas, em meus atuais estudos?” Sinceramente, ainda não tenho uma resposta definitiva. Porém, já possuo um esboço da mesma: não posso atribuir a culpa apenas à elevada carga horária discente na qual embarquei. Creio que novos ajustes e cursos de pensamentos aos quais minhas últimas experiências, leituras e reflexões têm me levado, gerando alguns tipos de incertezas que, por fim, têm me remetido a algumas novas indagações e a alguma insegurança, contribuíram para esse período sem produção. Cronologicamente, acredito que tenha ocorrido nada mais do que uma coincidência. Vou tentar explicar.
Lembro que, há pouco mais de um ano, quando comecei a escrever o meu livro, eu sabia que tinha muito o que viver, sentir e aprender. Porém, acreditava possuir uma boa ideia de como transcorreria, em minha vida, a gradual aplicação prática da filosofia existencial na qual estava mergulhando, sendo detentor de várias certezas e verdades. No entanto, atualmente, percebo que elas não passavam de parcas noções.
Apenas para ilustrar, eu estava certo de que, em um breve momento, eu iria escrever artigos mais voltados para o sexo em si, falando sobre possíveis curiosidades bissexuais que rondam muitas pessoas, swing e ménage, por exemplo, dentro ou não do modelo de relacionamento poliamor. Atualmente, tenho minhas dúvidas sobre a necessidade de abordá-los, pelo simples fato de que, amparados pela autoconsciência e tendo o amor, carinho e liberdade como linhas mestras, qualquer prática relacional deve ser isenta de julgamentos e de culpas. Ou seja, é muito pouco conversarmos sobre essas práticas levianamente condenadas se não conseguirmos nos sentir indivíduos munidos da capacidade de escolha, livres para se relacionar e amar a quem quer que seja, da forma que nos convier. Se essa viga psíquica não for muito bem construída, provavelmente a culpa nos pegará. Consequentemente, entregaremo-nos apenas parcialmente e a ressaca moral será certa.
Aqueles que me acompanham desde o início e/ou leram boa parte dos meus artigos e comentários, podem perceber que eu os iniciei focados no amor, na liberdade, nos relacionamentos e na sexualidade feminina que, como eu já expliquei, trata-se de assunto bem amplo e vai muito além do sexo em si, sendo este apenas uma das expressões daquela. Podemos notar que, aos poucos, a sexualidade e os relacionamentos foram deixando de ser o cerne das questões dos meus textos, dando lugar ao indivíduo, apesar de eu nunca ter deixado de citá-lo e valorizá-lo. Porém, creio que, no início, a ele tenha dado menos importância do que realmente possui isoladamente, ao como deve e merece ser refletido, cujas razões existenciais precisam ser pensadas e discutidas, em primeira mão, independentemente da forma que exerce sua sexualidade. Em suma, concluí que deveria ter começado com o indivíduo para depois conversarmos sobre as relações.
Não mudei de ideia acerca do determinismo do exercício da sexualidade sobre os variados graus de ansiedades, neuroses e possíveis psicoses que afligem as pessoas, principalmente nos tempos modernos – até porque vários psicanalistas, psicólogos e outros autores consagrados também defenderam e defendem tal linha, tais como Freud, Wilhelm Reich, Foucault, Marcuse, Rollo May, Roberto Freire, Erich Fromm, Arnaldo Jabor, dentre outros. No entanto, percebi que é quase inócuo discutirmos relacionamentos sem antes tecermos abordagens a respeito da essência do ser humano e suas questões existenciais: o self. Naturalmente, eu fui me voltando para ele – logo, também para MIM! – tanto em termos de reflexões baseadas em minhas experiências recentes, como de leituras diversas.
Para reforçar o que estou tentando lhes passar, cito um dos últimos parágrafos do livro do psicoterapeuta americano Rollo May, intitulado “O Homem a Procura de Si Mesmo”. Em minha opinião, trata-se de ótima leitura para nos levar a pensar de forma bem objetiva em nossa existência, o que fazermos de nossa breve caminhada neste mundo, no que realmente queremos para as nossas vidas, no por que agimos dessa ou daquela forma, na sociedade, religiões, na carga negativa da maioria dos pais em nossas escolhas ao longo de nossas vidas, etc. O autor dedicou o final do seu livro a uma abordagem sobre o amor e escreveu o seguinte:
“… o verdadeiro problema das pessoas de nossa época antecede o do próprio amor: é tornar-se capaz de amar. Ser capaz do intercâmbio responsável do amor é o critério mais seguro que possuímos para julgar a personalidade realizada. Mas por isso mesmo é uma meta conquistada somente na proporção em que se preencheu a condição anterior, que é tornar-se uma pessoa independente. De modo que todo o livro, e não apenas esta parte, poderia ser chamado de “prefácio ao amor”.”
Em resumo, nesse capítulo, Rollo afirma que o amor é um fenômeno raro em nossa sociedade e que é uma atitude néscia e, no mínimo, que denota total imaturidade, querermos verdadeiramente amar e nos fazer em condições de ser amados, sem um profundo e nada fácil autoconhecimento e independência afetivo-emocional. Por isso a banalização generalizada da atitude de amar. Durante todo o livro ele fala sobre questões existenciais do indivíduo, que o ser humano contemporâneo é pobre de espírito, ansioso, vazio e, somente no final, ele fala do amor, nesse capítulo que chamou de “Prefácio ao amor”. No mesmo capítulo, diz, ainda, o seguinte:
“… Na sociedade contemporânea existem todos os tipos de dependência fazendo-se passar por amor, uma vez que há tantas pessoas ansiosas, solitárias e vazias. Variam entre diferentes tipos de ajuda recíproca ou recíproca satisfação de desejos (que talvez sejam bastante sérios, caso recebam suas verdadeiras denominações), passando pelas várias formas “comerciais” de relação pessoal, até chegar ao nítido masoquismo parasítico. Não é nada raro encontrarmos duas pessoas que, sentindo-se solitárias e vazias, entram numa espécie de relacionamento, em um mútuo acordo para se protegerem da solidão…”
Durante essa longa fase em que tenho me voltado cada vez mais para o meu interior, tentando dialogar mais com meu EU, percebo que algumas “intenções de verdades” que eu tinha podem não corresponder exatamente ao que o meu self busca e deseja – mas isso ainda é uma suposição. Não acredito que eu tenha errado de direção. Apenas começo a supor que me encontrava apenas “mais ou menos” no sentido que me levaria a uma maior paz interior. Um exemplo: eu era um forte defensor do poliamor, achando que este modelo de relacionamento seria a mais legítima expressão da liberdade do ser humano e que, assim sendo, deveria ser buscado. Aos poucos, veio-me surgindo uma indagação: “será que não estou querendo, de fato, conhecer o sublime amor verdadeiro ou confluente, como o chama Anthony Giddens, ao mesmo tempo em que não quero abrir mão da antiga vaidade de macho predador e consumidor do sexo oposto? Qual o meu desejo prioritário? Aprender a amar alguém ou provar que somos capazes de amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, sem conflitos?”
Estas questões começaram a brotar à medida que eu tentava responder às difíceis perguntas “o que eu quero e do que eu realmente preciso?”, ao mesmo tempo em que venho percebendo que o exercício da arte de amar a apenas uma pessoa já é algo muito difícil – pelo menos para um principiante como eu.
Gostaria que entendessem que não acho o relacionamento aberto ou o poliamor inviáveis e não há razão alguma para descartar nada do que escrevi até agora. Muito pelo contrário, acho-os ótimas expressões de liberdade e admito vivê-los. Como sempre, continuo empunhando a bandeira da liberdade e defendendo-a como única forma de conhecermos o amor verdadeiro. Apenas creio que errei, ao mal estar conseguindo me equilibrar em uma bicicleta com aquelas duas rodinhas de apoio, tolamente pedir emprestada a motocicleta de mil cilindradas do meu cunhado, namorado de minha irmã mais velha. Em suma, creio que seja mais sensato seguir uma linha mais focada no aprendizado do que é amar… depois, quando eu estiver relativamente proficiente nele e se acontecer, vou pensar em participar de MotoCross.
Em seu livro intitulado “Amor é Prosa, Sexo é Poesia”, Arnaldo Jabor faz menção a um conto de Carson McCullers, onde um homem conta que, “antes de amar uma mulher, estou aprendendo a amar as pedras, as árvores, as nuvens…” Então, tenho pensado que seria tolice tentar queimar etapas. Aproveito-me para refazer a frase, expressando-a em uma ordem de prioridade: preciso aprender a amar as pedras, árvores, nuvens, uma mulher, duas mulheres, etc.
Todas essas questões me travaram e exigiram um reordenamento de pensamentos. Mas apesar de um pouco angustiado com as dificuldades para escrever, encontrava-me feliz pelos novos “insights”. De forma alguma me vi frustrado por ter mais dúvidas e incertezas do que antes e por acreditar que me equivoquei em algumas prioridades. Mantenho todas as ideias já escritas. Apenas achei que era importante manter o 1 antes do 2, este antes do 3, e assim por diante. Posso vir a alterar algo novamente? Sim… não me importo.
Colocar os pensamentos em prática ou aplicar a filosofia deve ser isso mesmo: dinâmica sempre, com grandes possibilidades de, algumas vezes, concluirmos que nos equivocamos e que o mais sensato é voltar a algum ponto anterior, sentar e refletir.
Abraços a todos. Estou feliz por ter conseguido escrever.
Impressionada! Seria este um homem pós-moderno? Aquele se vê no outro gênero e se reconhece? A crença de sermos iguais pode mudar todos os conceitos que regem as relações atuais. Um brinde à busca da Paridade Sexual!
Caro adm,
Lendo sua resposta acredito que não entendi o que desejou passar. Da mesma forma, que acredito que você não entendeu o que desejei passar. RS
Independente de envolver ou não outras pessoas, acredito, por experiência pessoal e também profissional, que mudanças internas, sejam quais forem, que acarretem uma dissolução de certezas e posterior aceitamento das incertezas da vida, gerem angústias e frustrações que nos paralisam, até o momento que nos sentimos capazes de aceitar essa nova forma de agir e pensar. Mas essa é apenas a forma como penso. De forma nenhuma com a intenção de impor minhas percepções!
Infelizmente, devidos ao diversos caminhos que vida nos propõe, me ausentarei desse blog por algum tempo.
Boa sorte e Beijo à todos!
Paulinha, digo o mesmo. É bom tê-la de volta e com vontade de compartilhar.
Não ficou bem claro para mim o que entendeu acerca do que afirmei sobre eu não estar me sentindo angustiado ou frustrado com a percepção da necessidade de repensar algumas coisas importantes… até porque essas mudanças não envolveram diretamente alguém… ou seja, não feriu ninguém. Foram mudanças interiores, na tentativa de conseguir entendimentos mais profundos sobre os meus reais desejos.
Muito bom tê-lo de volta por aqui. Apesar de também ausente não só no ultimo mês, mas também nos últimos posts, entrei e li alguns posts e comentários. Assim como o administrador decidi comprar, e não tentar pegar emprestada RS, uma moto. E como era previsível, me quebrei toda. O processo de cicatrização foi longo e por vezes ainda sinto aquelas dores características de mudança de tempo, porém hoje posso perceber que tudo que passei e ando passando foi imprescindível para a evolução de meu relacionamento e principalmente para a minha evolução pessoal. Como já foi dito por muitos aqui: Por vezes parar, repensar, talvez retroceder, e só então voltar a agir é necessário.
Por grande parte desse período de recolhimento devo admitir que, diferente do administrador, pouco pensei sobre as questões aqui discutidas. Nada li sobre o tema e inclusive abandonei pela milésima vez a leitura do livro “Mulheres que correm com os lobos”. Simplesmente fiz algo que sempre faço, só que dessa vez de forma consciente, recoloquei todo meu desejo e energia no trabalho e no meu relacionamento. Porém a psicologia brilhantemente alega que nosso inconsciente está sempre trabalhando, mesmo quando optamos por ignorar, e até mesmo frear, seus meios.
Os novos “insights” inicialmente nos deixam sim frustrados e angustiados – devo discordar de você nessa administrador- Afinal o paralisar, aceitar retroceder, reconhecer que o caminho é um pouco mais longo e doloroso que pensávamos é muito difícil. É se perceber inicialmente mais fraco, menos apto, cheios de incertezas, para só então aceitar e gozar a felicidade de ser perceber evoluindo e se aceitando novamente.
Reconstruindo não verdades, mas o desejo possível no momento. Então a frustração e angústias se desfazem e voltamos a caminhar e nos aceitar.
Sem dúvidas todo esse processo é muito difícil. Incertezas geram sim ansiedades, angústias e um grande sentimento de vazio, porém compreendem o combustível principal da evolução. Certezas, seja de qualquer qualidade e intencionalidade, apesar de gerarem uma sensação superficial de tranqüilidade, nos engessam, nos limitam nas inúmeras possibilidades do “ser”.
Digo mais, acho que começamos a realmente colocar em prática o que discutimos lá traz nos primeiros posts. A liberdade de se permitir ser, seja o que for, para poder viver o amor em suas múltiplas formas.
Quanto a minha moto está estacionada aqui em frente de casa, por vezes me arrisco a dar uma volta… No momento em paz com a minha inconstância de ser!
Beijo a todos
Ina,
Eu acredito ser perfeitamente possível amar duas pessoas. Porém, os valores morais e a hipocrisia que têm regido nossas vidas são tão avassaladoramente destrutivos que as pessoas não têm conseguido amar, literalmente, ninguém… nem pais e mães com relação aos seus filhos e vice-versa.
Qualquer pessoa com o mínimo de esclarecimento sabe que homens e mulheres desejam/podem desejar mais de uma pessoa, com intensidades diferentes e por razões um pouco distintas. Mas monogâmico, de fato e na essência, ninguém o é. A minha colocação foi em relação à busca, à necessidade prioritária de variação de parceiros sexuais, não permitindo que isso aconteça naturalmente e por desejo real, com algum tipo de envolvimento.
Thaís,
Vivemos na cultura do certo e errado bem definidos, na qual a conhecida frase “errar é humano” é, no mínimo, mal interpretada. Mas prefiro pensar que seja hipocritamente utilizada apenas quando se trata das próprias ações consideradas “erradas” pela sociedade, e somente no caso de alguém que não deveria, tomar conhecimento delas.
Adorei o termo andarilho…
Como escrevi no artigo, as incertezas que em mim estão sendo geradas estão me dando um puta tesão. Estou concluindo que querer ter certezas, prever e controlar o futuro, não aceitar que ele não aconteça como vemos nas novelas e não querer mudar de opinião para não ser chamado de “sem personalidade” são as principais causas das nossas ansiedades e neuroses. Ou seja, somos, de fato, andarilhos… todos nós… mas as fabricadas necessidades de certezas e aceitação social não nos permite admitir isso. Então, surgem os conflitos internos, nos mais variados graus, podendo levar à loucura. Estou aprendendo que as pessoas mais felizes são aquelas mais volúveis em suas certezas.
Ah, mais outra observação… sobre as suas vontades de macho… eu não sou.. então, acho que talvez pouco tenha a ver com sua condição masculina isso. Mas, é só o que eu acho! Bjus
Adorei! Questionar-se é sempre bom! Já pensei nisso diversas vezes.. embora nunca tenha colocado em prática nada dos “amores menos possessivos”, mesmo que os ache possíveis. Mas, eu sempre me perguntei… será que amar.. de verdade, eu poderei amar várias pessoas? Será o amor assim fácil de achar? Serei eu capaz de amar mesmo? E antes de tudo o que é amar de verdade? Isso anda rondando minha cabeça. A única coisa que acho que atrapalha imenso (como dizem os tugas.. rsrsrs) é quando eu ainda tendo a sentir tais coisas de forma moralista por mais que racionalmente eu não queira. É A A HERNAÇA DA CULPA! As vezes, parece que vai dar um nó nessa minha cabeça. rsrsrrs. Abç
Evitar, ou negar o erro é deixar de viver. Impedir o novo, abrigar-se do desconhecido e manter-se enrijecido numa mesma postura, por vergonha de errar, nos dá apenas uma alternativa: a impossibilidade de andar…e aprender, é caminhar para fora.
“Quem chegou, ainda que apenas em certa medida, à liberdade da razão, não pode sentir-se sobre a Terra senão como um andarilho – embora não como um viajante em direção a um alvo último: pois este não há. Mas bem que ele quer ver e ter os olhos abertos para tudo o que propriamente se passa no mundo; por isso não pode prender seu coração com demasiada firmeza a nada de singular; tem de haver nele próprio algo de errante, que encontra sua alegria na mudança e na transitoriedade.”
Nietzsche